O vento que sopra em São Tomé do Paripe, outrora portador da maresia, hoje carrega o hálito químico de um colapso anunciado. Para Jocivaldo Nascimento, os últimos cem dias não se contam em horas, mas na progressão de um luto coletivo que manchou a areia de um verde iridescente e fétido. O que era sustento e tradição, o rito cotidiano da pesca e o lazer das famílias, foi subitamente interditado por uma contaminação que, ao infiltrar-se no sedimento, envenenou o próprio modo de vida daquela gente.
Estamos diante de um espelho cruel, onde o desastre ambiental não apenas degrada a biota, mas expõe a precariedade de quem habita a margem. Enquanto o Ministério Público da Bahia e o Inema esgrimem laudos técnicos sobre compostos nitrogenados e metais pesados, a comunidade aguarda, entre a inércia administrativa e a desolação, por uma resposta que cure o mar e garanta a sobrevivência de milhares. É uma espera feita de reuniões semanais, cestas básicas insuficientes e o eco de uma rotina que, tragicamente, foi interrompida pelo lucro alheio.
A briga de narrativas entre Intermarítima e Gerdau, que se lançam acusações como se a responsabilidade fosse um fardo intercambiável, soa como um dejà vu insuportável de outras catástrofes industriais. Enquanto as empresas debatem competências e limpezas pretéritas, a população soteropolitana assiste ao definhamento de um território, transformando o caso em um sintoma nítido do racismo ambiental que silencia a voz dos mais vulneráveis. O mar, que deveria ser um bem comum, tornou-se um lembrete perigoso da negligência.
A promotora de justiça Hortênsia Gomes Pinho bem aponta o vazio deixado pela ausência de um decreto de emergência, uma ferramenta que seria o alicerce para a dignidade mínima dessas famílias. Não é apenas sobre a água contaminada ou os peixes mortos, mas sobre o desmantelamento de uma comunidade remanescente que, privada de sua fonte de renda, vê o futuro evaporar-se diante de uma burocracia insensível. A solução, se é que existe, exige mais do que laudos; exige a reparação profunda de uma ferida que o tempo, por si só, se recusa a cicatrizar.
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