Quem for pego praticando magia pode tomar uma multa pesada
A decisão da Federação de Futebol de Ruanda (FERWAFA), tomada há dez anos em 2016, de banir formalmente a bruxaria do esporte, é muito mais do que uma nota de rodapé exótica no anedotário mundial. Ela nos força a olhar para a complexa interseção entre cultura, fé, superstição e a lógica fria das regras institucionais em um mundo globalizado. O incidente envolvendo o atacante Moussa Camara, em que seu gesto à trave após um gol perdido foi seguido por um empate minutos depois, serviu como o estopim para uma legislação que, para muitos, soa como algo saído de um conto fantástico.
No cerne dessa proibição reside uma questão fundamental: como uma instituição moderna e regulatória lida com crenças que, para uma parte significativa da população, são tão reais quanto as leis da física? Em muitas sociedades africanas, as práticas de magia e feitiçaria são elementos enraizados na cosmologia popular, perpassando o cotidiano e, naturalmente, o campo de futebol. A percepção de que um talismã pode influenciar o resultado de um jogo não é mera metáfora; é uma convicção que alimenta esperanças e medos, e que move atletas e torcedores.
Minha análise me leva a crer que a FERWAFA, ao invés de ignorar ou ridicularizar tais crenças, optou por uma abordagem pragmática, ainda que insólita. Eles não buscaram provar ou refutar a existência da magia, mas sim endereçar o impacto social e psicológico dela no ambiente competitivo. Afinal, se jogadores acreditam que o adversário usa feitiçaria, isso pode desestabilizar o jogo, incitar a violência, como o próprio caso de Camara demonstrou, e minar a confiança na lisura da competição. O desafio, evidentemente, reside na definição: como se prova "incitação à bruxaria" sem métodos científicos?
Para o cidadão comum, e especialmente para os torcedores ruandeses, essa regra tem múltiplos significados. Por um lado, pode ser vista como uma tentativa de "modernizar" o esporte, afastando-o de práticas que poderiam ser percebidas como primitivas ou desleais. Por outro, ela pode gerar uma vigilância exacerbada e até perseguições baseadas em meras desconfianças ou interpretações errôneas de gestos. A penalidade de três pontos e uma multa significativa – 500.000 francos ruandeses, equivalentes a cerca de R$ 3 mil – é pesada e impacta diretamente a vida financeira dos envolvidos, baseada em relatórios subjetivos dos árbitros.
A longo prazo, as consequências podem ser ainda mais complexas. Embora a intenção possa ser a de garantir a integridade do jogo, a medida pode paradoxalmente reforçar a ideia de que a magia é real e eficaz, a ponto de exigir uma proibição formal. Além disso, ela coloca um manto de ambiguidade sobre o desempenho: será que um gol espetacular ou uma defesa milagrosa são fruto de treino e talento, ou sempre haverá a sombra da dúvida sobre uma possível intervenção mágica? Essa incerteza pode corroer a valorização do mérito esportivo genuíno.
Nós podemos refletir sobre como essa situação em Ruanda espelha, de certa forma, a dificuldade humana em lidar com o inexplicável e o incontrolável. Em qualquer latitude, o esporte é um terreno fértil para rituais e superstições – do amuleto da sorte à camisa preferida. A diferença em Ruanda é que essa crença foi levada ao domínio legal, transformando o invisível em uma infração passível de punição. É um espelho curioso da condição humana, que busca ordem e controle mesmo onde a lógica ocidental cede espaço à fé e ao mistério.
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